Março 28, 2008 por entremletras


O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Alberto Caeiro – vulgo Fernando
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Julho 15, 2007 por entremletras

Era poeta
(Manuel Brandão)
Era um poeta
era só um poeta
era um poeta só
e não sabia
Com temas, com poemas
com poesia
sem ter consciência
de que os fazia
Menino poeta
mas quem diria
E via os pavões
e ouvia seus gritos
e não olhava seus pés
mas conhecia cada faceta
de seus verdes e azuis
e olhava, olhava e olhava
E ouvia Augusto Calheiros
e ouvia Francisco Alves
e menino, menino
já ébrio de Vicente Celestino
Regava os canteiros
de alfaces, couves e repolhos
esperava a jabuticabeira madurar
isso é uma jararaca, mãe?
sabiá tá indo na bananeira
tem banana madura lá
e caixa de marimbondo cavalo
A estrela, fulgurante meta
no céu do futuro se escondia
e que ele, ali, já era poeta
só o tempo, só o tempo diria.
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Maio 5, 2007 por entremletras

Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio—essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta. Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa. Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar o cervo e apontar as armas. Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.
Então existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?
A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.
(WISLAWA SZYMBORSKA)
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Abril 23, 2007 por entremletras
“A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou—eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar
usando borboletas.”
Manoel de Barros
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Abril 16, 2007 por entremletras
HAIKAI – LEMINSKI
soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento confira
tudo que respira
conspira
duas folhas na sandália
o outono
também quer andar
a palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece
passa e volta
a cada gole
uma revolta bateu na patente
batata
tem gente verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida
nada me demove
ainda vou ser o pai
dos irmãos Karamazov
na rua
sem resistir
me chamam
torno a existir
debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir
cabelos que me caem
em cada um
mil anos de haikai
as folhas tantas
o outono
nem sabe a quantas
a chuva vem de cima
correm
como se viesse atrás
amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o
pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
meiodia três cores
eu disse vento
e caíram todas as flores
abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno
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Abril 16, 2007 por entremletras
Pecados Capitais – Frei Betto
Todos os pecados capitais, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.
A inveja é estimulada no anúncio da moça que, agora, possui um carro melhor do que o de seu vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira todas as peças publicitárias, do Carnaval a bordo no Caribe ao tênis de grife das crianças. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos bem sucedidos, que possuem lindas secretárias e planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar, cercados de afeto, numa lancha ao Sol. A luxúria é marca registrada da maioria dos clipes publicitários, em que jovens esbeltos e garotas esculturais desfrutam uma vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula subverte a alimentação infantil na forma de chocolates, refrescos, biscoitos e margarinas, induzindo-nos a crer que sabores são prenúncios de amores.
Há nas tradições religiosas uma sabedoria de vida. Despidos de preconceitos, se refletirmos bem sobre os sete pecados capitais veremos que cada um deles se refere a uma tendência egoísta que traz frustração e infelicidade.
A cobiça nos faz reféns do mercado e dos modismos, atraindo-nos ao buraco negro de irregularidades que, miragens no deserto, nos prometem dinheiro fácil e status de Primeiro Mundo. A avareza ensina a acumular dinheiro mesmo quando ele precisaria ser investido na melhoria de nossa qualidade de vida. Rendimentos passam a ser mais importantes que investimentos, como o caramujo que, por carregar a casa nas costas, se arrasta lento pela vida. A luxúria nasce nos olhos, agita a mente e perturba o coração. O objeto do desejo aliena do amor enquanto projeto, aprisionando-nos no jogo narcísico da sedução. A gula aumenta o colesterol, deforma o corpo e entristece o espírito. O orgulho é a terrível consciência de que queremos parecer o que não somos e, cheios de empáfia, nossa alma trafega apoiada em frágeis muletas. A preguiça traz incapacidade e atiça os devaneios, induzindo a trocar a realidade pela fantasia. A inveja é o espelho de nossa covardia em ser do tamanho que somos, nem maiores nem menores.
O fato é que há um conflito entre o princípio nº 1 da sociedade em que vivemos – ganhar dinheiro – e os valores que sedimentam a existência. Por que a ambição de uma viagem ao exterior não se reflete também no desejo de viajar para dentro de si mesmo? Mundo desconhecido, esse que trazemos no espírito. Mas, como turistas ocasionais, ficamos sem saber qual “agência” pode nos assegurar uma viagem de melhor proveito: a Igreja católica ou o budismo? O candomblé ou o espiritismo?
Deus é mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos. Recolher-se ao silêncio interior é sempre um excelente ponto de partida. Para quem nunca fez essa viagem, a partida assusta, porque não nos é dado o roteiro, e a paisagem exterior tenta-nos a abandonar o trem. Se controlarmos “a louca da casa”, a imaginação, logo o silêncio interior se faz voz. Então, somos apresentados ao nosso verdadeiro eu, que nos impele ao nós. E experimentamos inefável felicidade.
Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística e Espiritualidade” (Rocco), entre outros livros.
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Abril 16, 2007 por entremletras

Egotrip Desperdício

Bandalha Desleixo

Desconexão Indiferença

Não Prazer
(Adaptado da 20° Revista Oi- edição com o tema ‘Novos Pecados’)
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Março 30, 2007 por entremletras

” Se as portas da percepção estivessem limpas, o mundo apareceria para o homem tal como é: infinito”. William Blake

“Praticamente qualquer um pode suportar a adversidade, mas se quiser testar o caráter de alguém, dê-lhe poder.” Abraham Lincoln

”Eu sou o caminho a verdade e a vida”. Jesus Cristo

“A beleza será comestível ou não existirá”. Salvador Dali
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Março 20, 2007 por entremletras
Já não quero dicionários Leiam alegria
Consultados em vão. no movimento
Quero só a palavra das páginas
Que nunca estará neles
Nem se pode inventar. Leiam calor
Que resumiria o mundo no pregão
E o substituiria. das palavras
Mais sol do que o sol,
Dentro da qual vivêssemos Leiam amizade
Todos em comunhão, na paz dos espaços
Mudos, saboreando-a. em branco.
(Carlos Drummond de Andrade) (Horácio Dídimo)
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