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Essencial…

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O essencial é saber ver, 
Saber ver sem estar a pensar, 
Saber ver quando se vê, 
E nem pensar quando se vê 
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), 
Isso exige um estudo profundo, 
Uma aprendizagem de desaprender 
E uma seqüestração na liberdade daquele convento 
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas 
E as flores as penitentes convictas de um só dia, 
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas 
Nem as flores senão flores. 
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Alberto Caeiro – vulgo Fernando

 

 

 

Poeta

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Era poeta

(Manuel Brandão)

Era um poeta

era só um poeta

era um poeta só

e não sabia

Com temas, com poemas

com poesia

sem ter consciência

de que os fazia

Menino poeta

mas quem diria

E via os pavões

e ouvia seus gritos

e não olhava seus pés

mas conhecia cada faceta

de seus verdes e azuis

e olhava, olhava e olhava

E ouvia Augusto Calheiros

e ouvia Francisco Alves

e menino, menino

já ébrio de Vicente Celestino

Regava os canteiros

de alfaces, couves e repolhos

esperava a jabuticabeira madurar

isso é uma jararaca, mãe?

sabiá tá indo na bananeira

tem banana madura lá

e caixa de marimbondo cavalo

A estrela, fulgurante meta

no céu do futuro se escondia

e que ele, ali, já era poeta

só o tempo, só o tempo diria.

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Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio—essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta.
Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.
Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar o cervo e apontar as armas.
Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.

Então existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?

A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal. 

(WISLAWA SZYMBORSKA) 

Letra do Manoel

“A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou—eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

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 Perdoai
 Mas eu preciso ser Outros.
 Eu penso renovar

                                                    usando borboletas.”

Manoel de Barros

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Ao Gosto do Freguês

HAIKAI – LEMINSKI

 soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento
                                           confira

                                                              tudo que respira

                                                              conspira 

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar
 

                                                                     a palmeira estremece
                                                                     palmas pra ela
                                                                     que ela merece

 passa e volta
a cada gole


uma revolta 
                                              bateu na patente
                                                                   batata
                                                                   tem gente
 verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida
 

                                                                     nada me demove
                                                                     ainda vou ser o pai
                                                                     dos irmãos Karamazov
 

na rua
      sem resistir
me chamam
torno a existir
 

                                                                debruçado num buraco
                                                                vendo o vazio
                                                                ir e vir
 

cabelos que me caem
em cada um
mil anos de haikai
 

                                                                         as folhas tantas
                                                                         o outono
                                                                         nem sabe a quantas
 

a chuva vem de cima
correm
como se viesse atrás
 

                                                                         amei em cheio
                                                                         meio amei-o
                                                                         meio não amei-o
 

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
 

meiodia      três cores
eu disse vento
e caíram todas as flores
 

                                                                        abrindo um antigo caderno
                                                                        foi que eu descobri
                                                                        antigamente eu era eterno
 

Pecados Capitais

Pecados Capitais – Frei Betto  


 Todos os pecados capitais, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.
 A inveja é estimulada no anúncio da moça que, agora, possui um carro melhor do que o de seu vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira todas as peças publicitárias, do Carnaval a bordo no Caribe ao tênis de grife das crianças. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos bem sucedidos, que possuem lindas secretárias e planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar, cercados de afeto, numa lancha ao Sol. A luxúria é marca registrada da maioria dos clipes publicitários, em que jovens esbeltos e garotas esculturais desfrutam uma vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula subverte a alimentação infantil na forma de chocolates, refrescos, biscoitos e margarinas, induzindo-nos a crer que sabores são prenúncios de amores.
 
 Há nas tradições religiosas uma sabedoria de vida. Despidos de preconceitos, se refletirmos bem sobre os sete pecados capitais veremos que cada um deles se refere a uma tendência egoísta que traz frustração e infelicidade.
 
 A cobiça nos faz reféns do mercado e dos modismos, atraindo-nos ao buraco negro de irregularidades que, miragens no deserto, nos prometem dinheiro fácil e status de Primeiro Mundo. A avareza ensina a acumular dinheiro mesmo quando ele precisaria ser investido na melhoria de nossa qualidade de vida. Rendimentos passam a ser mais importantes que investimentos, como o caramujo que, por carregar a casa nas costas, se arrasta lento pela vida. A luxúria nasce nos olhos, agita a mente e perturba o coração. O objeto do desejo aliena do amor enquanto projeto, aprisionando-nos no jogo narcísico da sedução. A gula aumenta o colesterol, deforma o corpo e entristece o espírito. O orgulho é a terrível consciência de que queremos parecer o que não somos e, cheios de empáfia, nossa alma trafega apoiada em frágeis muletas. A preguiça traz incapacidade e atiça os devaneios, induzindo a trocar a realidade pela fantasia. A inveja é o espelho de nossa covardia em ser do tamanho que somos, nem maiores nem menores.
 
 O fato é que há um conflito entre o princípio nº 1 da sociedade em que vivemos – ganhar dinheiro – e os valores que sedimentam a existência. Por que a ambição de uma viagem ao exterior não se reflete também no desejo de viajar para dentro de si mesmo? Mundo desconhecido, esse que trazemos no espírito. Mas, como turistas ocasionais, ficamos sem saber qual “agência” pode nos assegurar uma viagem de melhor proveito: a Igreja católica ou o budismo? O candomblé ou o espiritismo?
 
 Deus é mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos. Recolher-se ao silêncio interior é sempre um excelente ponto de partida. Para quem nunca fez essa viagem, a partida assusta, porque não nos é dado o roteiro, e a paisagem exterior tenta-nos a abandonar o trem. Se controlarmos “a louca da casa”, a imaginação, logo o silêncio interior se faz voz. Então, somos apresentados ao nosso verdadeiro eu, que nos impele ao nós. E experimentamos inefável felicidade.
 
 Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística e Espiritualidade” (Rocco), entre outros livros.

Novos Pecados

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      Egotrip                                                           Desperdício

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Bandalha                                                                Desleixo

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Desconexão                                                        Indiferença

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                                               Não Prazer

(Adaptado da 20° Revista Oi- edição com o tema ‘Novos Pecados’)

Palavras Ditas

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” Se as portas da percepção estivessem limpas, o mundo apareceria para o homem tal como é: infinito”. William Blake

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“Praticamente qualquer um pode suportar a adversidade, mas se quiser testar o caráter de alguém, dê-lhe poder.” Abraham Lincoln 

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 ”Eu sou o caminho a verdade e a vida”. Jesus Cristo

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“A beleza será comestível ou não existirá”. Salvador Dali

Começo

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Já não quero dicionários                                    Leiam alegria

Consultados em vão.                                         no movimento

Quero só a palavra                                           das páginas

Que nunca estará neles                             

Nem se pode inventar.                                     Leiam calor

Que resumiria o mundo                                    no pregão

E o substituiria.                                                das palavras

Mais sol do que o sol,

Dentro da qual vivêssemos                              Leiam amizade

Todos em comunhão,                                      na paz dos espaços

Mudos, saboreando-a.                                    em branco.

 

(Carlos Drummond de Andrade)                     (Horácio Dídimo)