HAIKAI – LEMINSKI
soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento confira
tudo que respira
conspira
duas folhas na sandália
o outono
também quer andar
a palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece
passa e volta
a cada gole
uma revolta bateu na patente
batata
tem gente verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida
nada me demove
ainda vou ser o pai
dos irmãos Karamazov
na rua
sem resistir
me chamam
torno a existir
debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir
cabelos que me caem
em cada um
mil anos de haikai
as folhas tantas
o outono
nem sabe a quantas
a chuva vem de cima
correm
como se viesse atrás
amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o
pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
meiodia três cores
eu disse vento
e caíram todas as flores
abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno